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O Memorial da História em Quadrinhos da Paraíba é um projeto de extensão e pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba

Edição:
Henrique Magalhães

Contato: henriquemais@gmail.com

Equipe editorial:
Paloma Diniz

Cobaloradores:
Cristovam Tadeu (detalhe de ilustração para o cabeçalho)

Criou-se em julho de 2013, com fluxo contínuo de atualizações.

   Publicações

Blue note

A obra (fono)gráfica dos paraibanos é para ser lida em volume alto, sem dançar, pois requer muita atenção aos seus sentidos. Evidente que muitos dos ouvintes vão ensaiar umas batidas rítmicas com o pé quando folheá-la e outros tantos irão detestar suas músicas, acordes e presunção.

A prosa musical de Biu Ramos nos leva inicialmente a Rio Tinto, município interiorano da Paraíba. O próprio compositor nos apresenta o lugar, em tom panfletista, que resulta em “música de elevador”, já que a cidade é um estereótipo de canção-que-sabemos-de-cor como diversas espalhadas por aí, com sua pobreza e problemas sócio-econômicos que vemos sempre nos noticiários. Mas o que interessa saber é que o autor quer escapar de tudo isso e as próximas faixas do LP gráfico melhoram de tom, com histórias e personagens atípicos que se emaranham tentando formar um todo.

Referências cinematográficas são apresentadas engenhosamente como trilha sonora, ao exemplo dos pernambucanos Cinema, Aspirinas e Urubus e Amarelo Manga, apesar deste último ter uma cena totalmente xerocada (a da boceta galega), dando sensação de déjà-vu, nada mais. Além dessas, menções de quadrinhos, literatura, música e do cotidiano de seus autores sobem ao palco.

Por vezes as canções ficam desarmônicas, apesar do hábil jogo de fragmentação de algumas ações. Blue Note é complexo para ouvidos desacostumados, sim! Mas existem momentos que o compasso dos músicos (texto/arte) não alcança a mesma nota, como peças de quebra-cabeças mal montadas, desconexas, desajeitadas quando se vê o todo da sonoridade. São pensamentos à deriva, que têm andamento lento e melancólico (bem whertiniano) a cada virada de página ou a cada recordatório lido em longura, como o ritmo sincopado de fox-blues. Às vezes confunde (quem narra agora? O projétil?) e enfastia pelo excesso idiossincrático, individual, de introspecção mesmo.

Shiko, com seus virtuosos traços de vinila grafítico, prensa seu estilo ao longo da celulose com poucos arranhões, que são conseqüências da montagem diagramática e do tempus fugit de diversos ensaios. Segundo o quadrinhista e co-roteirista, centenas de páginas tinham que ser adaptadas para ser um só álbum e não uma coletânea. Acompanhei esses ensaios e fica o desgosto observar que muitas faixas criativas foram deixadas de fora - parcial ou não - como a trepada formada por onomatopéias.

Inconformismo e erotismo. Deus e o diabo. Bares e blues . Bonecas infláveis striper e robôs trompetistas. Resignação e morte. Sei lá, mil coisas. Blue Note é um caleidoscópio que merece “nota azul” na revista de crítica de música, mesmo com suas variações melódicas e descompassos.

Como uma banda independente, o LP gráfico foi lançado por intermédio de uma Lei de Incentivo Cultural do Estado merecidamente. Um portfólio de luxo para Shiko. Um moderado  début para Biu. Quem quiser escutar Blue Note, basta entrar em contacto com a Comic House e preparar o volume para o concerto.

Publicado em http://euodeioissoaqui.zip.net em 06 de abril de 2007.

 

 

 

 


Blue note
Biu (roteiro) & Shiko (desenhos)
Paraíba: 2006 (presumível), 108p. 19,5x28cm.
derbyblue@yahoo.com.br

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