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O Memorial da História em Quadrinhos da Paraíba é um projeto de extensão e pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba

Edição:
Henrique Magalhães

Contato: henriquemais@gmail.com

Equipe editorial:
Paloma Diniz

Cobaloradores:
Cristovam Tadeu (detalhe de ilustração para o cabeçalho)

Criou-se em julho de 2013, com fluxo contínuo de atualizações.

Dezembro de 2014

   Autores



PB em HQ

Quadrinistas do Estado contam como a cena local nasceu e cresce, literalmente, a olhos vistos

Rayssa Medeiros

Eles estão para as HQs como os conterrâneos Zé e Elba Ramalho e Chico Cesar estão para a música, Linduarte Noronha e Vladimir de Carvalho para o cinema, Zezita Matos para o teatro, Flávio Tavares para as artes plásticas, só para ficar com alguns nomes projetados para além das fronteiras do estado. Mike Deodato, por exemplo, 51 anos, recebe tratamento de rock star dos fãs das Histórias em Quadrinhos em todo mundo. Mike, ele mesmo filho do ícone Deodato Borges, criador do lendário super-herói Flama, é contratado pela Marvel, gigante americana dos Comic Books. São dele as arrojadas capas de gibis como Os Vingadores, Thor e Hulk.

“Meu pai foi decisivo na minha formação como quadrinista, além de ser uma inspiração. Ao contrário da maioria dos meus colegas, não tive que enfrentar resistência da família para seguir minha carreira, pelo contrário”, diz ele, que reside em João Pessoa e trabalha em casa. Deodato Borges criou um dos primeiros super-heróis nacionais, o primeiro paraibano. Ele morreu em agosto, aos 80 anos.

Além de Mike Deodato, a “nona arte” produzida na Paraíba está hoje representada Brasil afora por nomes de igual peso. Henrique Magalhães, Emir Ribeiro e Shiko são alguns dos que encabeçam a lista da nova geração de ídolos adorados, uns mais outros menos, por uma massa de seguidores, menos barulhentos que os fãs de rock é certo mas tão alucinados e fervorosos quanto.

Novas tecnologias

Outro pupilo de Deodato Borges é Henrique Magalhães, também de João Pessoa. Com 57 anos de idade, professor do Departamento de Mídias Digitais (Demid) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é dele a mais antiga e tradicional editora de quadrinhos do Estado, a Marca de Fantasia, fundada em 1995, hoje com vários títulos no mercado. O mais conhecido certamente é a revista “Maria”, mas há muitos outros como “A caravela” (Nilson), “A turma do xaxado” (Antônio Cedraz), Dito o bendito (Érico San Juan) só para citar alguns. O site da editora: HTTP://marcadefantasia.com/.

Na opinião de Magalhães, o cenário atual favorece quem trabalha nesse meio. Para ele, se um dia os suplementos dos jornais acenderam em uma geração a fagulha do desejo de se dedicar às HQs, as novas tecnologias fizeram com que esses criadores viabilizassem suas produções. “Além da internet, que serve de facilitadora para a divulgação, o acesso a meios gráficos e programas de edição dão aos criadores uma autonomia impensável décadas atrás. E o melhor, ainda há os financiamentos coletivos. Se um artista tem um projeto, mas não tem como bancar sua impressão, por exemplo, através do chamado crowdfunding (financiamento coletivo, em inglês) ele pode conseguir o dinheiro com o público que se interessa pelo projeto e quer vê-lo publicado”, argumenta.

Ele conta que Maria surgiu para representar as minorias que começavam a fazer barulho nos anos 1970, época em que os jornais A União e O Norte abriram espaço para as tirinhas de Magalhães e para Velta, a super-heroína sensual e combativa de Emir Ribeiro.

“Estávamos lutando contra a ditadura sim, mas eu sentia que, dentro da própria esquerda, as minorias estavam sem voz. Havia um discurso de se fazer a revolução política para depois tratar das liberdades individuais. Eu não concordava com isso. As duas coisas podiam e deviam ser feitas simultaneamente. Maria falava pelas mulheres, pelos gays, pelos negros, dentro do contexto da ditadura”, declara o autor de Maria.

Máfia editorial

Além de contemporâneos, Emir Ribeiro e Henrique Magalhães tinham propostas semelhantes quando lançaram suas personagens. Ambos queriam dar voz às mulheres, inverter a lógica estabelecida da época. “A Velta era inspirada nos quadrinhos norte-americanos que eu lia na adolescência. Mas eu queria que ela, a mulher, fosse a protagonista, pudesse se virar sozinha e não fosse apenas a mocinha em perigo, namorada do herói como era costume”, conta Emir, que não comercializa suas histórias nas bancas de jornais.

Segundo ele, há uma série de impedimentos causados pelas máfias editoriais, que fazem tudo para que as produções de artistas locais fiquem “invisíveis” ao público. “Tenho relatos de supostos “fiscais” que rondam as bancas e obrigam os jornaleiros a esconder as revistas não vinculadas às grandes editoras, fazendo chantagem de não repassar para eles as revistas de venda certa, caso eles insistam em expor a revista do artista local”, denuncia. “Se optar por um distribuidor central, este dificulta tudo em todos os sentidos. Você entrega 500 exemplares, mas apenas cem são efetivamente distribuídos ficando os outros 400 “guardados” na distribuidora. A venda, portanto, será inevitavelmente fraca e o distribuidor “pede” ao produtor que não traga mais as tais revistas, pois não vendem bem e dão prejuízo. Esses são apenas alguns exemplos. Há muito mais manobras praticadas para impedir que os artistas de quadrinhos locais consigam vender sua produção. Por isso, só vendo pela internet, através da minha página pessoal: www.emirribeiro.com.br”.

O grafiteiro

Quem passa pelas ruas de João Pessoa já deve ter reparado nos grafites coloridos que se misturam à paisagem urbana. Muitos levam a assinatura de Derby Blue ou Shiko, as identidades artísticas de Francisco José Souto Leite.

Shiko, 38, como acabou ficando conhecido tem uma trajetória de sucesso como grafiteiro e ilustrador em todo o país, mas como ele mesmo conta, os quadrinhos foram sua primeira escola. “Ainda em Patos, onde nasci, antes do grafite, eu já fazia fanzines com histórias em quadrinhos”, diz. Ele também mora em João Pessoa, mas passou uma temporada de dois anos em Florença, na Itália acompanhando a esposa, que foi fazer pós-graduação, e retornou este ano à capital paraibana.

Com trabalhos muito em aceitos em todas as linguagens artísticas pelas quais transita, Shiko tem no currículo uma participação no projeto de releituras das famosas personagens de Maurício de Sousa. Em 2013, o paraibano assinou a graphic novel Piteco-Ingá, que traz o pré-histórico personagem título em uma aventura ambientada na Pedra do Ingá.

Outro projeto recente foi uma adaptação do clássico O quinze, da escritora cearense Raquel de Queiroz, para os quadrinhos. A relação do artista com a literatura, aliás, é bem próxima. Ainda sem data de lançamento, Shiko planeja um livro ilustrado com poemas de Augusto dos Anjos.

Made in PB

Em 1998 um grupo de amigos que gostava de criar HQs se reuniu para produzir fanzines, termo que é o resultado da contração da expressão em inglês fanatic magazine, que em português quer dizer revista de fãs... Dessa associação surgiu o Studio Made in PB.

Segundo Janúncio Neto, 38, que responde pelo coletivo, a proposta e as atribuições do grupo foram crescendo com o tempo. “Nós vimos que era necessário fazer mais. Queríamos fortalecer uma cultura de consumo e de produção de quadrinhos”, explica. Foi então que o Studio, que começou reunindo amigos que queriam criar, abriu uma escola para formar novos artistas.

Antigos alunos acabaram se tornando professores e integrantes do Studio, que hoje atua em três eixos: criação, ensino (através da escola) e eventos. A promoção de eventos é uma das atividades mais importantes do Made in PB. O grupo promove o maior evento do gênero no Estado. O HQPB reúne artistas e fãs dos quadrinhos, segundo Janúncio, com a preocupação de manter uma identidade local.

Shiko é um dos que reconhecem a importância desses eventos. Para ele, é assim que se possibilita a troca de informações e um contato mais próximo entre público e criadores. Janúncio ressalta que é preciso criar público, só produzir não é uma opção. “Muitos acham que os quadrinhos são só para crianças, mas não é assim. É um gênero que possui produções para crianças, jovens e adultos. O desafio é apresentar essa diversidade ao público e criar uma cultura de consumo dos quadrinhos que têm uma linguagem muito rica. Tentamos fazer isso através dos eventos”, explica.

PB em HQ. Rayssa Medeiros. In Contraponto. Paraíba, 19 a 25 de dezembro de 2014, Caderno B, p.B-1.

 

 

 

 

 

 

 

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